De onde vem a pressão para escolher uma carreira?

Ter dúvidas sobre qual faculdade fazer e que profissão seguir atormenta muitos jovens. Por que isso acontece? E será que tanta pressão faz sentido?

Créditos: JESHOOTS-com/Pixabay

A pressão para escolher uma carreira vem de vários lados: da família, da escola, da enorme quantidade de textos disponíveis sobre escolhas profissionais, dos inúmeros testes para descobrir uma “vocação” o quanto antes. Não é à toa que, antes mesmo dos 18 anos, os jovens são tomados pela ansiedade de decidir logo qual caminho seguir – como se fosse preciso aproveitar uma janela única e curtíssima de tempo para fazer a escolha mais acertada possível entre centenas de opções.

Além de causar estresse, essa pressão está baseada em premissas erradas sobre como funciona o mundo profissional. A primeira delas é a de que, uma vez feita a escolha supostamente mais acertada de todas, a vida do estudante e jovem profissional entrará em “piloto automático”: como se bastasse estudar, conseguir o diploma e seguir uma trajetória relativamente estável no mercado de trabalho – subindo os degraus da carreira escolhida, de promoção em promoção, de cargo em cargo.

Sim, até existem pessoas que têm uma trajetória profissional regular e constante, mas as recentes transformações na esfera da economia e do trabalho têm tornado essa “estabilidade” cada vez mais coisa do passado. E já estamos em meio a essa mudança, tanto que os relatos de carreiras supostamente consistentes e sem grandes variações – muitas vezes em apenas uma ou duas empresas – são mais comuns entre pessoas que construíram suas trajetórias profissionais até os anos 1990.

Os “mitos” da escolha de carreira

Além de estar desconectada das atuais transformações, a pressão pela escolha de uma carreira se baseia em alguns “mitos” sobre a vida profissional:

  • A ideia de que desistir de um curso superior, trocar de área ou fazer uma transição de carreira significaria algum tipo de fracasso profissional.
  • A ideia de que é possível e viável fazer uma coisa só ao longo da vida inteira.
  • A tendência de acharmos que o mundo está parado no presente, de que as condições atuais serão as mesmas do futuro.
  • A ideia de que gostar de áreas profissionais diferentes indicaria falta de foco.
  • A ideia de que seria perda de tempo parar para pensar na escolha profissional ou tirar um período sabático para replanejar a carreira.

Embora esses “mitos” sejam persistentes no imaginário social, para desconstruí-los basta olhar para o mundo real. Veja o que momentos de crise fazem com carreiras antes tidas como estáveis. Note como o desenvolvimento de recursos de Inteligência Artificial tem mudado os setores de atendimento e telemarketing. E como a forma de consumir e distribuir conteúdo na internet tem alterado toda a indústria de jornalismo e mídia.

Hoje, não é nada impossível que as condições de um determinado setor mudem num espaço de tempo curtíssimo – talvez menor do que o tempo que levamos para concluir um bacharelado.

Créditos: kvrkchowdari/Pixabay

As mudanças do mercado de trabalho

Muitos pesquisadores têm se dedicado a estudar as transformações do mercado de trabalho e fazem algumas previsões sobre profissões e habilidades do futuro. Um estudo do Escritório de Carreiras da Universidade de São Paulo (ECar/USP), por exemplo, fala em “carreiras sem fronteiras”: a aposta é que, cada vez mais, as experiências e os conhecimentos acumulados por cada profissional serão mais importantes do que sua formação inicial.

Nesse futuro mais fluido, os profissionais precisarão ser flexíveis e provavelmente vão transitar entre dez áreas primordiais de atuação: saúde, transformação digital, educação, inovação, segurança, entretenimento, infraestrutura, sustentabilidade, ética e produção de energia.

Um estudo do Institute For the Future (IFTF), com sede na Califórnia (EUA), aponta que as atividades previsíveis e repetitivas serão automatizadas e que o sucesso profissional dependerá de um conjunto de 5 habilidades humanas fundamentais: impulso criativo, inteligência emocional, raciocínio lógico, conhecimento tecnológico e capacidade de julgamento. 

Nesse sentido, o que contará mesmo é a nossa habilidade de aprender e desenvolver novas habilidades ao longo do tempo e em todos os estágios da carreira. Outra aposta do IFTF é que muitas das profissões que existirão em 2030 ainda não foram criadas. Portanto, por maior que seja o nosso esforço de imaginação hoje, o futuro certamente nos aguarda com várias surpresas.

Isso não significa que seja inútil fazer uma faculdade ou pesquisar bem para descobrir com o que se quer trabalhar. Faça isso, sim, mas saiba que ao longo do tempo você terá a necessidade (e a liberdade) de fazer novas escolhas.

Gostou do tema deste artigo? Pensa em empreender? Então, aproveite para ver este bate-papo entre Cris Arcangeli e Álvaro Schocair:

Por Flávia Siqueira

Deixe uma resposta

Antes de prosseguir, você aceita receber informações no seu email?

Saiba mais sobre as políticas de privacidade clicando aqui.